Convergências por Joy Ernanny*

Tem situações que a gente prevê que aconteçam e outras que nos tomam completamente de surpresa ao se realizarem.  Foi dessa última forma que me senti na última segunda-feira, quando exibi o meu documentário “Unveil” (Além do véu) no Midrash, o centro cultural judaico do Rio de Janeiro.

O filme – um curta dirigido durante a minha pós graduação em cinema documental em Nova York, na New School – é sobre o primeiro cabeleireiro exclusivamente para mulheres localizado no Brooklyn. O objetivo é que as muçulmanas, que cobrem o cabelo por motivos religiosos, possam enfim ter um espaço para tirar o véu e se embelezarem sem se preocupar com a presença masculina no ambiente. Afinal, de acordo com a tradição islâmica, elas só podem mostrar o cabelo para homens de suas famílias.

Passei três meses frequentando esse cabeleireiro aos sábados para filmar a rotina das clientes e do staff. A minha intenção foi mostrar para o público, através dessa posição privilegiada em que me encontrava, a importância desse espaço privado num momento onde os Estados Unidos viviam uma alta de islamofobia, atribuída a eleição do Presidente Trump.

Com o documentário concluído, tive a chance de exibí-lo na apresentação dos trabalhos finais da minha turma em um grandioso auditório da universidade. Mas nem aquela noite de estreia chega aos pés da emoção e felicidade que senti ao exibi-lo no Midrash. Eram cerca de 80 pessoas – algumas em pé, outras sentadas no chão – que assistiram o “Unveil” com muita atenção e participaram de um bate-papo que durou uma hora sobre os temas do filme.

Falamos sobre religião, feminismo, preconceito, empreendedorismo, e até sobre assuntos mais filosóficos, como a força do cabelo como símbolo feminino. Mas o mais legal não foi apenas a riqueza da discussão. Vou tentar condensar a complexidade em uma frase: Um filme sobre mulheres muçulmanas exibido num centro cultural judaico e aplaudido por uma plateia -de maioria feminina- composta por judeus, muçulmanos, cristãos e ateus. E para completar, ao meu lado estavam duas pessoas que eu admiro muito como profissionais e como mulheres: a jornalista da GloboNews Leila Sterenberg, que mediou o bate-papo- e Monique Sochaczewski, historiadora e especialista em Oriente Médio que apresentou pontos de convergência entre as tradições de cobrir a cabeça no judaísmo e no islã.

da esquerda para a direita: Monique Sochaczewski, Joy Ernanny e Leila Sterenberg

Na minha posição de mulher, brasileira, jornalista e cristã, fico muito feliz de ter conseguido trazer para o Midrash esse filme que mostra que afinal, somos todas muito parecidas.

*Joy Ernanny é jornalista e produtora de programas da GloboNews, redatora do A Cor da Casa, e diretora do “Unveil” (Além do véu).