Rap, Arte e Moda no Louvre

Ousado, irreverente, inovador, provocador e… belíssimo. Assim se descreve o novo vídeo-clipe do casal musical mais famoso do mundo: Beyoncé e Jay-Z Carter. A música recém-lançada “Apeshit” faz parte do álbum novo da dupla, chamado: “Everything is Love”. Assim que foi lançado virou hit máximo nas redes sociais e chegou a ser comentado, debatido e elogiado não só pelas mais respeitadas publicações de arte e moda como também pelos jornalões tradicionais como The New York Times, The Guardian e Le Monde.

“Apeshit” foi gravado em um local que simboliza a cultura e riqueza mundial: o francês Museu do Louvre. Beyoncé e Jay-Z cantam e interagem com obras de arte icônicas como a obra-prima de Leonardo da Vinci, a Mona Lisa, as esculturas Vitória de Samotrácia e Vênus de Milo, como também a Coroação de Napoleão por Jacques-Louis David. Adentrando esse espaço público-privado que é sinônimo máximo da burguesia europeia e da elite branca, o casal negro causa impacto ao mostrar que conquistaram também esse espaço e esse público. E mais: trazem à tona temas de ordem como o empoderamento feminino (tema favorito de Beyoncé), o racismo e a igualdade de gênero.

Vestidos em grifes como Versace, Burberry, Gucci, Peter Pilotto e Alexander Wang, o casal super-poderoso sobrepõe ícones de luxo do passado – tão presentes nos quadros pendurados no Louvre- com o que é considerado luxo hoje.

E falando sobre moda, eles batem com força no tema da pluralidade de cores e tons de pele ao enfileirar mulheres das mais diversas cores vestidas em “nude”. Afinal, o tom da nudez depende da cor de pele de cada um, nos alertando ao absoluto equívoco de chamar tons de bege de “nude”.

São tantos temas e mensagens que fica difícil isolar exemplos. Mas, chamam atenção dois que valem menções. O primeiro sendo quando Beyoncé está na frente da figura de Josefina, mulher de Napoleão Bonaparte, no momento de sua coroação. Simbolicamente, Beyoncé se coloca no lugar dela e se coroa mostrando o poder e influência que a sua figura exerce hoje através da pop culture. Em segundo lugar, Jay-Z evoca atos de desobediência civil da época da Segregação nos EUA, quando fala que recusou a proposta do NFL de cantar no concorrido show do SuperBowl. Afinal ele é contra a decisão da liga americana de futebol que vetou o ato de protestos de muitos jogadores negros que passaram a cantar o hino nacional ajoelhados, no no ritual que antecede o início de uma partida.

Beyoncé e Jay-Z conseguiram através de um só vídeo clipe quebrar tabus, levantar questões de relevância política, inspirar reflexões e, é claro, entreter seu público. É um tremendo feito e que deve ser celebrado através do olhar da música, da moda, da arte, do design e também da poesia política.