Belém no Rio

O Rio Olímpico está com uma programação cultural de dar inveja. Entre as muitas exposições em cartaz durante os Jogos, a curadora Vanda Klabin recomenda a individual “Histórias Curtas”, da artista e escultura mineira Laura Belém. A partir do dia 19 de julho, Laura apresentará duas novas séries de trabalhos na Galeria Athena Contemporânea. A mostra reúne trabalhos recentes e inéditos compostos de grupos de esculturas realizados a partir de peças de pedra-sabão e uma série de colagens.

A inspiração para os trabalhos surgiu através do contato de Laura Belém com o centro comercial Cassino Atlântico, que comercializa antiguidades e também abriga a Galeria Athena Contemporânea. A intenção é criar um diálogo entre o ambiente do centro comercial e da galeria de arte. 

Laura Belém

Vanda Klabin, curadora da exposição, observa: “Laura Belém cria territórios simbólicos onde as impossibilidades se tornam presentes seja pelo deslocamento de situações espaciais, seja pelo esvaziamento do conteúdo original de objetos – como se quisesse afirmar uma realidade física que está prestes a se volatilizar. Resta apenas um resíduo sugestivo de narrativas anteriores, à espera de novas camadas de significados.”

 A artista Laura Belém com a curadora Vanda Klabin

Com o título Histórias Curtas, a mostra instiga o espectador e faz referência ao assunto da exposição: a vida, da morte, e novamente da vida. A artista, a partir da apropriação de elementos e da reinserção deles em novos contextos e narrativas, transforma a percepção do espectador, dando novos sentidos à elementos utilizados e descartados em nosso cotidiano.

Tudo começou quando Laura visitou uma das tradicionais oficinas de pedra-sabão nas proximidades de Ouro Preto e encontrou várias peças utilitárias que haviam sido descartadas pelos artesãos, por estarem inacabadas, quebradas ou por apresentarem algum defeito de fabricação. As peças inutilizadas estavam depositadas num canto da oficina e, por estarem ali há muito tempo, estavam totalmente cobertas com o pó da própria pedra sabão, o que lhes agregava uma camada temporal. Algumas permaneciam maciças – uma tigela sem a cavidade escavada; outras sem a base que lhes permite ser um recipiente – como no caso de uma garrafa sem o fundo. Laura se interessou pelo potencial escultórico dessas peças que ‘deram errado’, que não serviram ao seu propósito funcional. Com isso, iniciou um processo de resgate desses utilitários descartados, tanto nessa oficina como em outras da região.

 

“Meu interesse nessas peças como esculturas iam, portanto, além do seu potencial formal para incorporar o acaso, a falha, e a atuação do tempo – elas se tornavam relíquias do processo,” conta a artista.

A outra série de trabalhos da exposição, “Tapeçaria (Big Bang)”, resulta mais diretamente do contato de Laura com o Cassino Atlântico e em particular com a feira que ocorre ali aos sábados, quando são dispostos longos tapetes pelos corredores e andares do centro comercial, transformando toda a sua percepção. Tais tapetes ficam ali para serem comercializados e muitos deles são persas, apresentando motivos florais ou da fauna. A série resulta de uma série de fotografias de detalhes desses tapetes, que foram impressas em papel de arroz e em seguida rasgadas à mão, para se transformarem em novas composições de colagens sobre papel. Movimento, contração e expansão, estão ali presentes, e isso é enfatizado pelo título, assim como a ideia da criação. “Na cosmologia, Big Bang se refere à rápida expansão da matéria que deu origem ao universo. O fim e o começo conectados, o fragmento e o todo, o ciclo do tempo, a transformação, o dia-a-dia alterado – essas são algumas das ideias por trás da exposição,” ela acrescenta.

“Histórias curtas” inaugura dia 19 de julho e fica em cartaz até 21 de agosto na Galeria Athena Contemporânea, que fica na Av. Atlântica, 4.240.