Turbulência poética

Cinquenta trabalhos de dez consagrados artistas brasileiros fazem parte da exposição Novos Talentos: Fotografia Contemporânea no Brasil, que inaugura hoje na CAIXA Cultural. Com curadoria da historiadora Vanda Klabin e coordenação e idealização de Afonso Costa, a mostra apresenta visões fotográficas variadas, com linguagens e processos de criação únicos que se utilizam de momentos políticos, da mutabilidade da natureza e até do próprio corpo como experimento. São eles: Alexandre Mury, Arthur Scovino, Berna Reale, Gustavo Speridião, Luiza Baldan, Matheus Rocha Pitta, Paulo Nazareth, Raphael Couto, Rodrigo Braga e Yuri Firmez.

O A Cor da Casa entrevistou a curadora Vanda Klabin, que falou sobre a diversidade e linguagem dos trabalhos selecionados. Confira: 

 

COM A PRODUÇÃO DE FOTOGRAFIA EM ALTA, NÃO DEVE TER SIDO FÁCIL SELECIONAR APENAS DEZ NOMES PARA A MOSTRA. COMO FOI ESSE PROCESSO?

A diversidade talvez seja o que  mais caracteriza a produção artística nesses últimos anos e  a linguagem da fotografia  é um exercício extremamente  complexo, um universo contaminado por linguagens híbridas seja  através da abordagem da esfera política, ou de uma natureza miscigenada, ou da utilização do próprio corpo como protagonista principal – elementos que aumentam  a latitude das imagens. Selecionei dez artistas  que visam explorar diferentes possibilidades estéticas, suas diferenças e singularidades dentro de um universo articulado, que evidencia   uma turbulência poética  e  nos prende na sua rede de inquietações, consolidando  um modo mais reflexivo de ação e   interrompendo  a continuidade pacífica do mundo real.

Na série “Rosa Púrpura”, Berna Reale contou com a participação de 50 jovens de Belém para discutir a questão da violência contra a mulher.

 

PARECE QUE O CORPO COM EXPERIMENTO É ALGO BEM PRESENTE NESSA EXPOSIÇÃO. COMO OS NOVOS TALENTOS ABORDAM ESSE TEMA?

Essas fotografias mergulham em territórios ambíguos, pois lidam  com o campo da performance, testando os limites  do corpo em diversas situações estéticas. Apresentam aqui  uma condição plural  de Eus através de uma clave sensorial, apropriam-se de si mesmos, trazem as suas presenças em cena  como uma celebração  móvel para o registro fotográfico.

Alexandre Mury representa os quatro elementos naturais – ar, água, fogo e terra – a partir de seu próprio corpo. 

Para Raphael Couto, as ações de metamorfose do corpo se dão no detalhe, no fragmento.

 Erotismo, rituais e mitologias estão presentes na série “Nhanderudson – num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico”, de Arthur Scovino.

HÁ REALMENTE ALGO DE NOVO SENDO PRODUZIDO NO BRASIL?  

Detonar novas ideias e as  diferenciadas formas de olhar, estão sempre presentes na linguagem da artística contemporânea.  A produção  fotográfica no atual  cenário cultural é indicativo de uma tensão visual e uma imagem nos invade através diversas formas poéticas. Provoca  diferentes nuances nas suas reivindicações estéticas e despertam conhecimento, diferenças, contradições nos espectadores e no público em geral.  Entre os artistas estão presentes:  Alexandre Mury, Arthur Scovino, Berna Reale, Gustavo Speridião, Luiza Baldan, Matheus Rocha Pitta, Raphael Couto, Rodrigo Braga, Paulo Nazareth, Yuri Firmeza.  Nesse diálogo particular, guardam fortes oposições, questionam o mundo real, exibem o mundo em fraturas sem esquemas redentores. Segundo  a  afirmação de Luiza Baldan, “uma capacidade de combinar outroras e agoras”.  

 A parceria entre o homem e a natureza está presente nas fotos de Rodrigo Braga, que cria um documento visual perturbador.

QUAL É A MENSAGEM QUE O CONJUNTO DA OBRA DESSES DEZ FOTÓGRAFOS PASSA AO VISITANTE?

Esse conjunto de artistas reunidos nessa exposição, amplia as claves de reflexão  sobre a linguagem visual e suas diferentes experimentações no campo da arte.  Gostaria de acentuar nessas fotografias aqui presentes, uma tensão entre o visível e o invisível, delinear os diversos percursos que por vezes encontram abrigo na esfera da política, no registro sensorial do corpo ou de uma inversão da lógica da natureza. Pretendo trazer à tona uma constelação de informações e referências dentro do qual a fotografia  se movimenta, através de um exercício compartilhado de discussões dentro deste território ainda em disputa.

A violência, o desencanto e a condição da miséria humana estão presentes na impactante série Brasil, de Matheus Rocha Pitta. O artista mistura carnes vermelhas em um processo mimético com as areias escaldantes de Brasília.

 

A exposição Novos Talentos: Fotografia Contemporânea no Brasil fica em cartaz até 18 de outubro na Caixa Cultural – Av. Almirante Barroso, 25, Centro.  A entrada é franca.