Encontro com Marina

Marina Abramovic é provavelmente o nome mais conhecido mundialmente quando o assunto é arte performática. Até o final de agosto, ela está em cartaz em Londres na Serpentine Gallery com a performance  “512 Hours”, que aborda o tema da atenção plena – ou “mindfulness”. A estudante de urbanismo Maria Ernanny, moradora da capital inglesa há 3 anos, relata a experiência única que foi se deparar frente a frente com Marina.


By: Maria Ernanny

Esperei cerca de 30 minutos na fila num dia ensolarado em Londres- nada mal para quem esperava encontrar uma fila quilométrica, como os jornais alertavam. Entrei na sala de exposição, e fui obrigada a deixar todos meus pertences, como bolsa, celular e relógio, em um armário. Em troca, recebi um fone de ouvidos que isola ruídos externos. Em seguida, instrutores vestidos de preto gentilmente guiaram meu grupo para dentro da sala.

Nos primeiros minutos dentro da sala me senti como um bebê que acaba de sair da barriga da mãe, num processo onde foi preciso aprender a lidar com o desconhecido com pouca instrução, já que a única linguagem é a dos gestos e silêncio. Como todos os fãs de Marina, agucei o olhar para tentar encontrá-la. Mas logo percebi que não era ela a verdadeira estrela da sala, e sim os visitantes.

Eram três salas com atividades diferentes.  A primeira, tem três atividades simultâneas: a do centro é uma plataforma em formato de cruz onde os instrutores nos guiam para ficarmos em cima num círculo com os olhos fechados. A outra atividade é de contar lentilhas e arroz em mesas individuais olhando para a parede (três paredes no total). A outra é a de assistir a tudo que está acontecendo em algumas cadeiras na frente da sala- as vezes ate mesmo de olhos fechados.

A segunda sala tem macas com cobertores coloridos e os instrutores delicadamente te convidam a deitar – todo movimento e instrução deles vem com um toque gentil, e eles até mesmo seguram a sua mão. Aceitei o convite e fui acomodada na cama como uma criança pela mãe. A sala tem mais ou menos 20 camas, e ao me deitar, o ambiente era tão convidativo, que fechei os olhos esqueci de tudo e todos a minha volta. Me deixei levar. Quando abri os olhos, percebi que a Marina estava deitada na cama ao meu lado. Minha reação foi de surpresa e curiosidade! Mas logo, o clima do ambiente ao meu redor me trouxe de volta para a experiência introspectiva.

A última sala lida com o movimento, sem usar relógio o tempo fica diferente e essa sala te convida a caminhar em movimentos lentos. Minha primeira impressão foi que tudo aquilo era ensaiado, não era possível que um grupo que não se conhecia estava caminhando no mesmo ritmo… E isso para mim foi o mais interessante: o visitante realmente faz parte da exposição. Numa mesa da sala encontramos papeis coloridos em A4 (azul, amarelo e vermelho) com uma cadeira virada para cada, onde podíamos nos sentar para observar.

Do momento em que se entra na exposição, o visitante pode ficar o tempo que desejar dentro de cada sala e fazer as atividades quantas vezes quiser. Eu passei uma hora e meia lá dentro. Dos 600,000 que já passaram por lá desde a inauguração em junho, alguns passaram o dia inteiro.

As críticas são variadas -realmente não é uma experiência que agrada a todos. Mas, o interessante é que como qualquer boa obra de arte, ela não se limita ao que acontece no instante em que você esta diante dela. E sim, provoca e prolonga o pensamento para o lado de fora da galeria.

A “512 Hours” começa antes de chegar na Serpentina Gallery. Eu, por exemplo, fui num sábado às 13h. Tive que deixar em aberto o que faria no resto do meu dia, já que não poderia calcular o tempo que passaria lá dentro, e que também não poderia me comunicar com ninguém ao entrar – já que meu celular ficaria isolado num locker por um tempo indeterminado.

 Ao sair da galeria, foi inevitável ficar pensando no tempo. O tema ocupou meu pensamento pelo resto do dia. A atividade de deitar na maca me deixou tão descansada que perdi a noção do tempo. Quanto tempo teria dormido? Me fez pensar se eu descansaria mais se não soubesse, nem calculasse, quantas horas durmo por noite.

Alguns acharam que a regra de deixar o celular e o relógio do lado de fora foi um clichê. Todos nós já lemos e refletimos diversas vezes sobre a dependência que essa dupla exerce em nossas vidas. Mas na minha opinião, Marina Abramovic aborda esse tema de uma forma nova e diferente. Ela oferece ao visitante uma solução, em vez de apenas apresentar o problema. O exercício da atenção plena – mindfulness – onde somos treinados a  autorregular nossa atenção para a experiência presente, é muito válido para os tempos de hoje. 

“512 Hours” fica em cartaz na Serpentine Gallery, em Londres, até 25 de agosto. A galeria fica em Kensignton Gardens.