Arte decorativa

Por Alessandro Sartore

Impossível começar um texto sobre arte na Casa Cor sem pensar em Matisse.  Para ele a decoração era um lugar onde a pintura poderia acontecer. Padrões de papel de parede, cadeiras, almofadas, tudo isso era  lugar da visualidade para o artista. Assim, pinturas maravilhosas surgiram no seu ateliê, como O Estúdio Vermelho.

Pensando na relação arte/decoração me lembrei da frase que ouvi de um artista contemporâneo numa vernissage: “essa pintura tem um formato doméstico, perfeita para o sofá da sala.” E com esses pensamentos fui para a missão a mim conferida. Confesso que se o convite não tivesse sido feito num sábado de sol acompanhado de uma cerveja gelada, não aceitaria. Definitivamente não sou da palavra, sou da imagem, mas como para mim missão dada é missa cumprida…

Os primeiros ambientes são amplos e de dimensões generosas, propícios para a arte. É isso que acontece no Lobby de Pedro Paranaguá, a criação de Gabriela Maciel se relaciona com o belo pé direito. Levado por esse trabalho, foi fácil entrar no Lounge do Hotel, repleto de obras interessantíssimas. Sim, Gisele Taranto facilitou o meu “trabalho”. Fica claro que arte contemporânea faz parte do repertório da arquiteta. Não só pela quantidade e qualidade da curadoria, feita por Mara Fainziliber, mas porque as obras não estão expostas. Elas foram colocadas, como o mobiliário, a iluminação, o tapete, tudo com o mesmo peso, sem juízo de valor entre arquitetura, design e arte. Diria que tudo aqui foi carinhosamente pensado, como na Tropicália do Hélio Oiticica, mal ou bem comparando.

Simétrico ao Lounge, usando o Lobby como eixo, está o living de Erick Figueira de Melo. Recheado de arte também, mas aqui as obras estão expostas realmente. A iluminação é despretensiosamente pretensiosa, pontua uma por uma as obras, que respiram generosamente por todo o ambiente. Assim, o nosso olhar é naturalmente convidado à passear por uma bela seleção de artistas: Raul Mourão, Miguel Rio Branco, Amilcar de Castro, Marcelo solá, etc. Só blue chip, como diriam os entendidos do mercado.

Subindo a escultórica escada, que me leva direto ao ambiente de Andrea Chicharo, vejo um trabalho de Manfredo Souza Neto que coroa o ambiente. Sigo pelo corredor e encontro uma exposição de fotografias, instintivamente procuro a placa de acrílico que identifica o autor do espaço. E para minha surpresa não existe um responsável pelo projeto dos corredores. Os corredores não são mais ambientes? E por não serem ambientes, para resolvê-los criaram uma exposição? Uma exposição não precisa de uma galeria? E uma galeria pode ser em um corredor? Mas uma galeria não é um espaço? Essas perguntas, somadas aos dois pensamentos do início desse texto me instigam mais ainda a continuar o passeio. Qual será o segredo de Tostines?

Paloma Yamagata me surpreende com o seu espaço, muito bem solucionado, e com maravilhosos trabalhos de Adriana Varejão colocados como os pontos de  cor das pinturas de Cézanne, que ativam e desativam o ambiente. Bela surpresa! Mais adiante outras arquitetas que se valem da arte em seus ambientes, Adriana Valle e Patricia Carvalho. Das sofisticadas paredes revestidas com a mesma madeira de caixote de feira, sim sofisticadas paredes, surgem elegantes Paulo Pasta, Cláudia Jaguaribe, Cascão e outros.

Seguindo por outro corredor mas agora nu, de ninguém, coitado, entro no Apartamento Carioca de Alexandre Lobo e Fábio Cardoso. Eles conseguem com a seleção de obras com referências Pop dar um ar de jovem colecionador. Uma prática felizmente cada vez mais difundida nas novas gerações. Seguindo encontro o ambiente de Luiz Fernando Grabowsky e um trabalho em especial me chama a atenção, não identifico o artista e pergunto ao recepcionista o nome do autor. E a grata surpresa, é um Schnabel. Um Julian Schnabel? Pergunto perplexo e recebo um gesto afirmativo com a cabeça. Continuo percorrendo o ambiente sem acreditar na presença de tal artista no evento. Encontro um Nelson Leirner no banheiro e imagino que o Nelson deve ter adorado estar ali. Antes de sair mais uma conferida na tal obra, será mesmo? Se o meu amigo artista estivesse ao meu lado eu perguntaria: um Schnabel é um trabalho de formato doméstico, independente da dimensão?

Agora acompanhado de Julian Schnabel entro no espaço de Dani Parreira e Flávia Santoro. Uma homenagem ao artista, digo designer, não, o arquiteto Sérgio Rodrigues e vejo seus desenhos nas paredes emoldurados como obras de arte, suas miniaturas em vitrines de vidro como esculturas, seus bancos pendurados como luminárias. E com um sorriso no canto da boca entendo que Sérgio é arquiteto, designer, artista e muitas outras coisas.

Instalação. Não sei se contaminado pelo o meu olhar, mas é como o espaço de Miguel Pinto Guimarães se apresenta. Nenhum artista, nenhuma obra exposta. Salvo por uma cadeira, que não consegui saber o autor e o banco “esculpido” por Miguel. O ambiente não tem arte, é um trabalho de arte em si. Pensado como instalação no projeto.

Depois de passar por todos esses ambientes, lembrar de Matisse, meu amigo artista, todas as perguntas que me enchem a cabaça  (detesto textos cheios de interrogações), Schnabel, ah Schnabel! Concluo que a arte estava bem apresentada na Casa Cor. Então, na saída, entro no último corredor do evento e acho que nada mais vai acontecer. Surge um ambiente forrado de papel pintado, inscrições, volumes estranhos, mas esse corredor tem autor: é Joana César, artista. Agora quem faz falta ao meu lado é Matisse.  Com certeza ele entenderia esse papel de parede como ninguém.

E como no gole da cerveja gelada do sábado, entendo: arte, arquitetura, design, moda, vida etc não precisam de placa de acrílico. Está tudo junto e misturado.

Alessandro e a parede de livros do Lounge do Hotel de Gisele Taranto

 

As obras do Living de Erick Figueira de Mello

 

A obra Mil Corações, de Adriana Eu, no Lounge do Hotel

 

Detalhe do Site Specific de Joana Cesar no corredor do térreo